O relógio marcava 6:00 da manhã. Já estava na hora de abrir os olhos, levantar, me arrumar e ir a procura de um emprego. Sim, a vida só é bonita quando estamos de olhos fechados. Quando dormimos e sonhamos.
E lá estava eu, acordando para a realidade, sendo tirada de um sonho bom que ao abrir os olhos se transforma em pesadelo.
Mal começa o dia e já começo minha luta contra o tempo. Todos nós vivemos em função do tempo, hora para acordar, hora para se arrumar, hora para ir trabalhar, ah mas essa eu não tenho... não tenho mais emprego. Na semana retrasada aconteceram coisas que daria para encher um caderno com palavras.
Ah, falando em palavras me lembrei que em meu antigo emprego passava o dia todo escrevendo, trabalhava na redação de um jornal local.
Todos os dias levantava cedo, tomava um banho gelado, bebia um café quente, acordava as crianças; que assim como eu não gostavam de ser acordadas para o pesadelo. Mas até duas semanas atrás, nossas vidas era um sonho bom..
Então deixava as crianças em casa com a Dulce, uma doce senhora amiga de muitos anos da família
de meu marido. E como precisávamos de alguém de confiança, ainda mais agora que Alice, minha filha mais nova, estava começando a dar os seus primeiros passos, era preciso alguém que ficasse de olho na minha pequena. Sem dizer que o Pedro, já estava na idade de começar a frequentar a escola.
John, meu marido já havia o matriculado no colégio e ficava encarregado de levá-lo e buscá-lo.
Meu serviço me consumia tanto que às vezes chegava em casa e nem olhava para as crianças, nem para o John e já ia direto para o computador a procura de alguma matéria que me fizesse crescer dentro daquele jornal. Uma matéria que fizesse com que todas as empresas de comunicação soubesse e voltasse seus olhares para mim, queria que reconhecessem meu nome. Talvez estava sendo egoísta demais.
Mas quem é que não quer ser reconhecido pelo seu trabalho? Todos queremos ser reconhecidos.
Não sei se por sorte ou por azar, a tal matéria bombástica que há anos esperava e que poderia fazer meu nome, estava em minhas mãos.
Já era tarde, estava voltando do jornal e indo para a casa, como de rotina dei uma olhada na caixa de correio, tinha alguns talões de energia e algumas correspondência de bancos, pensei: só contas, problemas, mais encheção de saco. E eis que fui surpreendida, no meio de daquela papelada toda havia uma carta, uma carta para mim e era de um primo do meu pai. Estranhei o fato dele me escrever, afinal desde o natal de 1983 onde houve uma briga entre ele e o John por questões política, que perdemos o contato.
Seu nome era Jorge. Jorge dizia na carta que viria passar alguns dias aqui na cidade, por conta de um tratamento médico que iria começar a fazer. Então escrevi de volta dizendo que sim, ele poderia vir e ficar hospedado aqui em casa por alguns dias.
No começo John não concordou muito por conta do desentendimento que tiveram, mas já havia se passado muito tempo e Jorge estava com sérios problemas de saúde e precisava começar logo seu tratamento. Pelo menos era o que parecia.
Jorge veio, o recebemos com um jantar, John e ele conversavam como se tivessem esquecido o fato que ocorrera no natal de 83. A rotina seguia, mesmo com Jorge hospedado em minha casa.
Talvez fosse impressão minha mas ele parecia não gostar muito das crianças, sempre evitava ficar no mesmo ambiente com elas, olhava com uma cara de desprezo, na verdade Jorge tinha algo que o deixava meio estranho, talvez fosse a tal doença.
E isso passou a me incomodar bastante. Não sei porque mas passei a persegui-lo. Todas as noites saia com apressado com uma maleta e de fato ia mesmo para o hospital e só voltava na manhã seguinte. Chegava e ficava trancado por horas no quarto de visitas, com a sua maleta.
Os dias estavam passando e Jorge continuava em minha casa e eu mesmo cansada por causa do meu trabalho que me consumia cada vez mais continuava a persegui-lo.
Coisas muito estranhas estavam acontecendo, pelo jornal assim como por toda a cidade corria a notícia de que havia encontrado o corpo de uma jovem que tinha sido assassinada na noite passada e arrancaram-lhe quase que todos os seus órgãos.
Como trabalhava em jornal, não me causou muito espanto a noticia. Mas aquele era o começo de um surto. Se tivesse acontecido apenas uma vez, mas não... várias pessoas estavam sendo mortas e suas vítimas eram tiradas os órgãos. Tinha um assassino solto por aí, ao qual nós do jornal numa dessas matérias o nomeamos de Maníaco dos Órgãos e finalmente eu tinha uma notícia a qual todos liam com atenção.
O medo se espalhou pela cidade, a principal notícias de todos os jornais era a violência que vinha ocorrendo cada vez com intensidade maior, mas o que mais preocupava a todos era que esse Maníaco estava solto por ai.
Um dia cheguei em casa cansada, de cabeça quente por conta de tudo isso que vinha acontecendo. Dulce não estava, nem as crianças, nem John e nem o Jorge, na verdade nem me lembrava mais que Jorge continuava hospedado em minha casa. Tudo isso que estava acontecendo na cidade já vinha me consumindo.
Todos os dias dar notícias de pessoas que foram assassinadas e tiradas o órgãos e sem nenhuma pista do Maníaco, me deixou a beira de uma loucura. E foi num desses surtos que liguei para meu chefe e pedi na altura do campeonato para sair do jornal, é pedi demissão.
Já era tarde e nada de barulhos pela casa, liguei para o John para contar o que havia acontecido, que tinha deixado o trabalho e que agora teria mais tempo pra cuidar dele, da casa e de nossa família. Mas nada o celular apenas chamava, até cair na caixa postal. Pensei, eles foram jantar e devem ter passado em algum lugar depois, as crianças sempre inventavam de passar em algum lugar onde pudessem se divertirem.
As horas passavam e minha preocupação aumentava, já era hora das crianças dormirem, era hora deles terem chegado em casa...
Então liguei para Dulce que me contou que viu John, as crianças e Jorge saindo e o fato que a mais impressionou foi que jorge saiu com sua maleta, eles haviam ido jantar e Jorge levou consigo sua maleta.
Fui logo para o quarto de visitas onde o tal primo do meu pai estava hospedado melhor dizendo; parasitando.
Mexi em tudo, procurava algo que nem sabia o que era. Enquanto procurava alguma resposta, dentro do paletó do Jorge encontrei uma carta que ele escreveu e deve que esqueceu de enviar ou ainda iria enviá-la.
Não queria invadir mais a privacidade de Jorge e ler aquela carta que era destinada ao Dr. Américo, pensei que poderia ser algo relacionado ao fim do tratamento que Jorge veio com o intuito de fazer.
Mas uma curiosidade sobrenatural tomou conta de mim. Peguei aquela carta abria apressadamente e comecei a ler. Realmente parecia uma carta para um médico, na verdade uma carta, diria, muito bem elaborada e que se não fosse lida por alguém que entendesse de palavras, passaria despercebido o fato de no final dela estar escrito: " Dr. Américo, como sabe nunca dei muito certo com crianças, não gosto de crianças e os filhos da filha de meu primo estão realmente me deixando a flor da pele, me irritam cada dia mais, não aguento passar mais nem um dia nessa casa. Quando estiver tranquilo, me ligue para podermos colocar um fim em nosso tratamento, levarei alguns presentes para você."