quarta-feira, 23 de maio de 2012

Catarse

Não sei dizer o que estava sentindo. Não queria nem mesmo dizer nada. A solidão naquele momento me bastava. Todos os dias antes de dormir aquela cena se projeta em minha mente, risadas de crianças, sussurros, mulheres que gritam desesperadas, sangue, a frieza de um coração pulsante, a loucura se manifestando.
   Antes, nunca havia me sentido mal em fazer o que faço, afinal ganho até bem para cumprir com o meu dever. Sou sozinho no mundo, agora ainda mais. Não gosto muito de crianças e conversar com as pessoas, quase não tenho amigos, não tenho sonhos, não tenho fé, penso não ter esperanças. Sinto que a qualquer momento eles virão atrás de mim. Mas não sou tão mal assim, todos comentem crimes. Independente se é contra a lei dos homens ou contra a lei divina.
   Sempre ouvi dizer que não existem crimes perfeitos, e isso vai contra minhas ideias, mas quem diz isso talvez tenha mesmo razão. Não se pode sair impune, só que saem, na maioria das vezes diria. Mas isso quando não há provas, isso quando o crime não se torna um escândalo regional, nacional. Não se deve causar choque na população, não se deve em hipótese alguma desencadear um sentimento voluntário de raiva em alguém. Na verdade não se deve jamais despertar motivos de revoltas. Um bom criminoso, não tem sentimentos age naturalmente depois de um belo plano, claro.
  Acho que já deve fazer duas semanas ou mais que arrisquei minha identidade, agora corro o risco de ter que pagar pelos meus atos, não somente meus, afinal há sempre um grande cérebro por trás de qualquer belo plano, um cérebro que passa todas as informações e que garante que não haja falhas. E sim, o erro foi meu. A falha foi minha. Um paletó. Uma carta. Como posso ser tão estúpido ao ponto de deixar rastros de um crime?  Sei que ela a uma hora dessas já deve saber tudo, ela já deve ter lido a carta. Maldita carta. Maldito crime. Malditas crianças que agora devem estar brincando com as harpas divinas a espera de seu pai, que agora deve estar sendo julgado para entrar no paraíso. Maldito John, nunca me esqueci do natal de 83.
   Pensando bem, não havia nada demais escrito naquela carta que conseguisse  provar que tais crimes foram cometidos por mim. Porém, Naome a filha de um primo meu é esperta, com certeza já deve saber de tudo, ela trabalha na redação de um jornal e compreende o sentido de cada palavra dita ou escrita. E durante o tempo que estive hospedado em sua casa, sei que estava sendo observado. Pode ser que agora a polícia já saiba do nosso desaparecimento. Alias, pelo o que sempre me pareceu Naome é uma mulher de garra e daria a alma para salvar sua família.
    Estou ferrado. Não existe crime perfeito, sou um otário. Quando Dr. Américo souber que houve falhas em seu plano arrancará todos os meus órgãos e colocará a venda no mercado negro. Não vejo mais saída. Sinto que criei uma armadilha para capturar a mim mesmo. Pensando bem, pode ser que sim ainda haja esperança. Todos creem que a esperança é a última que morre e eu ainda não a matei, apenas deixei que adormecesse aqui.
   
- Tin-don, tind-donnn.
Algo me faz perder o ritmo dos meus pensamentos. Era a campainha. Pronto nada mais posso fazer, descobriram. Serei pego, julgado e preso. Acabou o jogo, não conseguia parar de repetir para mim mesmo tais palavras. Não sei se devo ao menos me levantar dessa cadeira, ir até a porta e me entregar de um modo pacífico ou se espero que derrubem a porta e me levem a força.
- Tin-don, nossa; continuam a tocar a campainha, penso que se fosse a polícia já teria arrancado a porta num chute, com certeza não perderiam tempo esperando minha boa vontade de atende-los e abrir a porta.
   Depois de ficar alguns minutos com o pensamento vagando por ai, criei coragem e fui até lá ver o que era. Pelo olho mágico pude ver que era Naome. Mas que diabos ela fazia aqui? Será que trouxera com ela a policia? Como descobriu que estou me refugiando aqui? Quem não tem mais nada, já não tem mais nada o que perder. Decidi abrir a porta, Naome estava sozinha, com um semblante abatido, parecia ter envelhecido cinco anos nessas duas últimas semanas. Em silêncio entrou no apartamento, do lado de fora está frio e do lado de dentro escuro, ficou me encarando por alguns segundos. Olhava dentro dos meus olhos quando com uma voz suave disse:
- Por que fez isso Jorge? Por que matou minha família? Mate-me também. Leve meus órgãos para o Dr. Américo. Arranque toda essa dor do meu peito de uma vez. Não me mate assim, aos poucos.
    Respirei fundo, estava com medo de ser outra armadilha. Então disse a ela:
- Naome entenda. Não sei como lhe dizer, pois pensei que sempre soubesse...
Sou apaixonado por você, sempre quis tê-la somente para mim. O fato de 83, a tal discussão que tive com o John não foi por questões políticas como pensa ser. Tudo começou quando seu falecido marido percebeu que eu a desejava assim como Adão e Eva desejavam serem Deus e por isso comeram o fruto proibido que a Serpente lhes oferecera. E pelo mesmo motivo, matei sua família. Para que pudesse ser só minha. Naome, meu maior sonho sempre foi tê-la como minha mulher. Realmente quando vim para essa cidade, foi com o intuito de fazer meu tratamento psiquiátrico. Mas o fato de ver que estava com uma bela família formada, que estava feliz e que eu estava enlouquecendo sozinho me fez aceitar fazer parte dos planos de Dr. Américo; ele me disse que essa seria a única forma de eu tê-la somente para mim. Eu aceitei, não teria como algo dar errado, Dr. Américo já tinha todos os mínimos detalhes planejados eu apenas sedava as vítimas para que ele pudesse tirar seus órgãos.
Órgãos valem muito no mercado negro e a demanda tem aumentado cada vez mais, me obrigando a fazer o que fiz. Naome entenda, tudo o que fiz foi por amor. Esqueça o que aconteceu, finja que não sabe de nada assim como sei que fez com o natal de 83. Então me compreendes?
     Ela tinha lágrimas nos olhos e eu a observava assim como se observa a lua em noite de lua cheia, contemplo sua face, que apesar das lágrimas se mantêm sem expressões definidas.
- Sim Jorge. Assim que terminei de ler a carta que por desventura esqueceu no bolso de seu paletó pude perceber que o culpado não era você. A culpa é toda do Dr. Américo, você não é psicopata, você está apenas cego por amor, um amor doentio, como pensei que fosse. Eu também Jorge, eu também te amo.
     Depois de ouvir tudo isso lentamente me aproximei dela e a acariciei levemente a face enxugando suas lágrimas, a abracei e beijei nos lábios quando de repente ouço três disparos e uma enorme dor no peito. Em seguida ouço mais um.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A carta

     O relógio marcava 6:00 da manhã. Já estava na hora de abrir os olhos, levantar, me arrumar e ir a procura de um emprego. Sim, a vida só é bonita quando estamos de olhos fechados. Quando dormimos e sonhamos.
E lá estava eu, acordando para a realidade, sendo tirada de um sonho bom que ao abrir os olhos se transforma em pesadelo.
     Mal começa o dia e já começo minha luta contra o tempo. Todos nós vivemos em função do tempo, hora para acordar, hora para se arrumar, hora para ir trabalhar, ah mas essa eu não tenho... não tenho mais emprego. Na semana retrasada aconteceram coisas que daria para encher um caderno com palavras.
Ah, falando em palavras me lembrei que em meu antigo emprego passava o dia todo escrevendo, trabalhava na redação de um jornal local.
     Todos os dias levantava cedo, tomava um banho gelado, bebia um café quente, acordava as crianças; que assim como eu não gostavam de ser acordadas para o pesadelo. Mas até duas semanas atrás, nossas vidas era um sonho bom..
     Então deixava as crianças em casa com a Dulce, uma doce senhora amiga de muitos anos da família
de meu marido. E como precisávamos de alguém de confiança, ainda mais agora que Alice, minha filha mais nova, estava começando a dar os seus primeiros passos, era preciso alguém que ficasse de olho na minha pequena. Sem dizer que o Pedro, já estava na idade de começar a frequentar a escola.
John, meu marido já havia o matriculado no colégio e ficava encarregado de levá-lo e buscá-lo.
    Meu serviço me consumia tanto que às vezes chegava em casa e nem olhava para as crianças, nem para o John e já ia direto para o computador a procura de alguma matéria que me fizesse crescer dentro daquele jornal. Uma matéria que fizesse com que todas as empresas de comunicação soubesse e voltasse seus olhares para mim, queria que reconhecessem meu nome. Talvez estava sendo egoísta demais.
Mas quem é que não quer ser reconhecido pelo seu trabalho? Todos queremos ser reconhecidos.
    Não sei se por sorte ou por azar, a tal matéria bombástica que há anos esperava e que poderia fazer meu nome, estava em minhas mãos.
Já era tarde, estava voltando do jornal e indo para a casa, como de rotina dei uma olhada na caixa de correio, tinha alguns talões de energia e algumas correspondência de bancos, pensei: só contas, problemas, mais encheção de saco. E eis que fui surpreendida, no meio de daquela papelada toda havia uma carta, uma carta para mim e era de um primo do meu pai. Estranhei o fato dele me escrever, afinal desde o natal de 1983 onde houve uma briga entre ele e o John por questões política, que perdemos o contato.
    Seu nome era Jorge. Jorge dizia na carta que viria passar alguns dias aqui na cidade, por conta de um tratamento médico que iria começar a fazer. Então escrevi de volta dizendo que sim, ele poderia vir e ficar hospedado aqui em casa por alguns dias.
    No começo John não concordou muito por conta do desentendimento que tiveram, mas já havia se passado muito tempo e Jorge estava com sérios problemas de saúde e precisava começar logo seu tratamento. Pelo menos era o que parecia.
   Jorge veio, o recebemos com um jantar, John e ele conversavam como se tivessem esquecido o fato que ocorrera no natal de 83. A rotina seguia, mesmo com Jorge hospedado em minha casa.
Talvez fosse impressão minha mas ele parecia não gostar muito das crianças, sempre evitava ficar no mesmo ambiente com elas, olhava com uma cara de desprezo, na verdade Jorge tinha algo que o deixava meio estranho, talvez fosse a tal doença.
E isso passou a me incomodar bastante. Não sei porque mas passei a persegui-lo. Todas as noites saia com apressado com uma maleta e de fato ia mesmo para o hospital e só voltava na manhã seguinte. Chegava e ficava trancado por horas no quarto de visitas, com a sua maleta.
    Os dias estavam passando e Jorge continuava em minha casa e eu mesmo cansada por causa do meu trabalho que me consumia cada vez mais continuava a persegui-lo.
Coisas muito estranhas estavam acontecendo, pelo jornal assim como por toda a cidade corria a notícia de que havia encontrado o corpo de uma jovem que tinha sido assassinada na noite passada e arrancaram-lhe quase que todos os seus órgãos.
   Como trabalhava em jornal, não me causou muito espanto a noticia. Mas aquele era o começo de um surto. Se tivesse acontecido apenas uma vez, mas não... várias pessoas estavam sendo mortas e suas vítimas eram tiradas os órgãos. Tinha um assassino solto por aí, ao qual nós do jornal numa dessas matérias o nomeamos de Maníaco dos Órgãos e finalmente eu tinha uma notícia a qual todos liam com atenção.
O medo se espalhou pela cidade, a principal notícias de todos os jornais era a violência que vinha ocorrendo cada vez com intensidade maior, mas o que mais preocupava a todos era que esse Maníaco estava solto por ai.
    Um dia cheguei em casa cansada, de cabeça quente por conta de tudo isso que vinha acontecendo. Dulce não estava, nem as crianças, nem John e nem o Jorge, na verdade nem me lembrava mais que Jorge continuava hospedado em minha casa. Tudo isso que estava acontecendo na cidade já vinha me consumindo.
Todos os dias dar notícias de pessoas que foram assassinadas e tiradas o órgãos e sem nenhuma pista do Maníaco, me deixou a beira de uma loucura. E foi num desses surtos que liguei para meu chefe e pedi na altura do campeonato para sair do jornal, é pedi demissão.
   Já era tarde e nada de barulhos pela casa, liguei para o John para contar o que havia acontecido, que tinha deixado o trabalho e que agora teria mais tempo pra cuidar dele, da casa e de nossa família. Mas nada o celular apenas chamava, até cair na caixa postal. Pensei, eles foram jantar e devem ter passado em algum lugar depois, as crianças sempre inventavam de passar em algum lugar onde pudessem se divertirem.
As horas passavam e minha preocupação aumentava, já era hora das crianças dormirem, era hora deles terem chegado em casa...
    Então liguei para Dulce que me contou que viu John, as crianças e Jorge saindo e o fato que a mais impressionou foi que jorge saiu com sua maleta, eles haviam ido jantar e Jorge levou consigo sua maleta.
Fui logo para o quarto de visitas onde o tal primo do meu pai estava hospedado melhor dizendo; parasitando.
Mexi em tudo, procurava algo que nem sabia o que era. Enquanto procurava alguma resposta, dentro do paletó do Jorge encontrei uma carta que ele escreveu e deve que esqueceu de enviar ou ainda iria enviá-la.
Não queria invadir mais a privacidade de Jorge e ler aquela carta que era destinada ao Dr. Américo, pensei que poderia ser algo relacionado ao fim do tratamento que Jorge veio com o intuito de fazer.
    Mas uma curiosidade sobrenatural tomou conta de mim. Peguei aquela carta abria apressadamente e comecei a ler. Realmente parecia uma carta para um médico, na verdade uma carta, diria, muito bem elaborada e que se não fosse lida por alguém que entendesse de palavras, passaria despercebido o fato de no final dela estar escrito: " Dr. Américo, como sabe nunca dei muito certo com crianças, não gosto de crianças e os filhos da filha de meu primo estão realmente me deixando a flor da pele, me irritam cada dia mais, não aguento passar mais nem um dia nessa casa. Quando estiver tranquilo, me ligue para podermos colocar um fim em nosso tratamento, levarei alguns presentes para você."

Pretérito

O passado é o tempo perdido de conhecimentos ganhados,
o passado é o presente que não volta mais.
O passado é o ontem sem hoje, é o sol que se pôs
é o momento que já se foi.
O passado é o que passou e se alguma coisa aqui deixou,
amanhã poderá também ser passado.
Tudo aqui esta de passagem, passando e virando passado.

Crer


Espera pelo tempo que espera por você.
Estranho é viver e não esperar por nada.
É inevitável não sonhar, assim como é inevitável não dormir.
A ausência é a falta. E o que nos falta é crer.
Esperança é o mesmo que esperar, crer é acreditar,
se acredita em seus sonhos não basta apenas esperar pelo tempo.
Todos esperam por algo, mas poucos lutam para conseguir.

domingo, 13 de maio de 2012

Escuro

O que é a vida, se não o ato de viver?
São apenas dias, dias que correm para o fim.
Nesse meio tempo alguns acontecimentos te levanta
ou te derruba e continuamos nessa luta.
Caindo e levantando, talvez fosse mais fácil esperar
 pelo fim sentado, sem lutar.
Não, todos os dias iguais? Isso não.
Pensar na vida deixa qualquer um louco.
Cada dia é um passo para o fim.
E um dia nada vai ficar aqui, todos esqueceram
da sua luta.
Na verdade, que luta? Se já sabe que tudo irá terminar assim.
Escuro.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Lá se vai...

Vai se lá mais alguns segundos,
alguns minutos,
alguns dias,
algumas semanas,
até mesmo alguns anos.
E passa,
o vento passa.
O amor acaba.
A fé se renova.
E continuamos a acredita;
que quanto mais o tempo passa,
melhor tende a ficar.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Um outro dia

Um dia bom, bom dia.
Manhã fria, que esteve quente.
Quente apenas no clima.
Aqui tem um canto onde sempre é frio.
Não importa, hoje é um outro dia...
O frio assim como todo aquele calor também passa.
Somos moldados, não somos soldados.
Não existe sentido, existe sentimentos.
Ou a falta deles.

Da janela


Da janela vejo a vida, vejo o vento batendo no galho das árvores,
vejo o outono, não vejo saída.
Os dias tem me feito esquecer que as noites são frias, que não basta
apenas dormir para curar certas feridas.
Cicatriza-se desejos que ardem em minha pele, esqueço que as feridas
fazem parte de nossas vidas.
Que a vida é tão breve como a brisa. Leve brisa que guia o vento,
que leva os galhos que observo. Apenas observo a vida da janela.