Não sei dizer o que estava sentindo. Não queria nem mesmo dizer nada. A solidão naquele momento me bastava. Todos os dias antes de dormir aquela cena se projeta em minha mente, risadas de crianças, sussurros, mulheres que gritam desesperadas, sangue, a frieza de um coração pulsante, a loucura se manifestando.
Antes, nunca havia me sentido mal em fazer o que faço, afinal ganho até bem para cumprir com o meu dever. Sou sozinho no mundo, agora ainda mais. Não gosto muito de crianças e conversar com as pessoas, quase não tenho amigos, não tenho sonhos, não tenho fé, penso não ter esperanças. Sinto que a qualquer momento eles virão atrás de mim. Mas não sou tão mal assim, todos comentem crimes. Independente se é contra a lei dos homens ou contra a lei divina.
Sempre ouvi dizer que não existem crimes perfeitos, e isso vai contra minhas ideias, mas quem diz isso talvez tenha mesmo razão. Não se pode sair impune, só que saem, na maioria das vezes diria. Mas isso quando não há provas, isso quando o crime não se torna um escândalo regional, nacional. Não se deve causar choque na população, não se deve em hipótese alguma desencadear um sentimento voluntário de raiva em alguém. Na verdade não se deve jamais despertar motivos de revoltas. Um bom criminoso, não tem sentimentos age naturalmente depois de um belo plano, claro.
Acho que já deve fazer duas semanas ou mais que arrisquei minha identidade, agora corro o risco de ter que pagar pelos meus atos, não somente meus, afinal há sempre um grande cérebro por trás de qualquer belo plano, um cérebro que passa todas as informações e que garante que não haja falhas. E sim, o erro foi meu. A falha foi minha. Um paletó. Uma carta. Como posso ser tão estúpido ao ponto de deixar rastros de um crime? Sei que ela a uma hora dessas já deve saber tudo, ela já deve ter lido a carta. Maldita carta. Maldito crime. Malditas crianças que agora devem estar brincando com as harpas divinas a espera de seu pai, que agora deve estar sendo julgado para entrar no paraíso. Maldito John, nunca me esqueci do natal de 83.
Pensando bem, não havia nada demais escrito naquela carta que conseguisse provar que tais crimes foram cometidos por mim. Porém, Naome a filha de um primo meu é esperta, com certeza já deve saber de tudo, ela trabalha na redação de um jornal e compreende o sentido de cada palavra dita ou escrita. E durante o tempo que estive hospedado em sua casa, sei que estava sendo observado. Pode ser que agora a polícia já saiba do nosso desaparecimento. Alias, pelo o que sempre me pareceu Naome é uma mulher de garra e daria a alma para salvar sua família.
Estou ferrado. Não existe crime perfeito, sou um otário. Quando Dr. Américo souber que houve falhas em seu plano arrancará todos os meus órgãos e colocará a venda no mercado negro. Não vejo mais saída. Sinto que criei uma armadilha para capturar a mim mesmo. Pensando bem, pode ser que sim ainda haja esperança. Todos creem que a esperança é a última que morre e eu ainda não a matei, apenas deixei que adormecesse aqui.
- Tin-don, tind-donnn.
Algo me faz perder o ritmo dos meus pensamentos. Era a campainha. Pronto nada mais posso fazer, descobriram. Serei pego, julgado e preso. Acabou o jogo, não conseguia parar de repetir para mim mesmo tais palavras. Não sei se devo ao menos me levantar dessa cadeira, ir até a porta e me entregar de um modo pacífico ou se espero que derrubem a porta e me levem a força.
- Tin-don, nossa; continuam a tocar a campainha, penso que se fosse a polícia já teria arrancado a porta num chute, com certeza não perderiam tempo esperando minha boa vontade de atende-los e abrir a porta.
Depois de ficar alguns minutos com o pensamento vagando por ai, criei coragem e fui até lá ver o que era. Pelo olho mágico pude ver que era Naome. Mas que diabos ela fazia aqui? Será que trouxera com ela a policia? Como descobriu que estou me refugiando aqui? Quem não tem mais nada, já não tem mais nada o que perder. Decidi abrir a porta, Naome estava sozinha, com um semblante abatido, parecia ter envelhecido cinco anos nessas duas últimas semanas. Em silêncio entrou no apartamento, do lado de fora está frio e do lado de dentro escuro, ficou me encarando por alguns segundos. Olhava dentro dos meus olhos quando com uma voz suave disse:
- Por que fez isso Jorge? Por que matou minha família? Mate-me também. Leve meus órgãos para o Dr. Américo. Arranque toda essa dor do meu peito de uma vez. Não me mate assim, aos poucos.
Respirei fundo, estava com medo de ser outra armadilha. Então disse a ela:
- Naome entenda. Não sei como lhe dizer, pois pensei que sempre soubesse...
Sou apaixonado por você, sempre quis tê-la somente para mim. O fato de 83, a tal discussão que tive com o John não foi por questões políticas como pensa ser. Tudo começou quando seu falecido marido percebeu que eu a desejava assim como Adão e Eva desejavam serem Deus e por isso comeram o fruto proibido que a Serpente lhes oferecera. E pelo mesmo motivo, matei sua família. Para que pudesse ser só minha. Naome, meu maior sonho sempre foi tê-la como minha mulher. Realmente quando vim para essa cidade, foi com o intuito de fazer meu tratamento psiquiátrico. Mas o fato de ver que estava com uma bela família formada, que estava feliz e que eu estava enlouquecendo sozinho me fez aceitar fazer parte dos planos de Dr. Américo; ele me disse que essa seria a única forma de eu tê-la somente para mim. Eu aceitei, não teria como algo dar errado, Dr. Américo já tinha todos os mínimos detalhes planejados eu apenas sedava as vítimas para que ele pudesse tirar seus órgãos.
Órgãos valem muito no mercado negro e a demanda tem aumentado cada vez mais, me obrigando a fazer o que fiz. Naome entenda, tudo o que fiz foi por amor. Esqueça o que aconteceu, finja que não sabe de nada assim como sei que fez com o natal de 83. Então me compreendes?
Ela tinha lágrimas nos olhos e eu a observava assim como se observa a lua em noite de lua cheia, contemplo sua face, que apesar das lágrimas se mantêm sem expressões definidas.
- Sim Jorge. Assim que terminei de ler a carta que por desventura esqueceu no bolso de seu paletó pude perceber que o culpado não era você. A culpa é toda do Dr. Américo, você não é psicopata, você está apenas cego por amor, um amor doentio, como pensei que fosse. Eu também Jorge, eu também te amo.
Depois de ouvir tudo isso lentamente me aproximei dela e a acariciei levemente a face enxugando suas lágrimas, a abracei e beijei nos lábios quando de repente ouço três disparos e uma enorme dor no peito. Em seguida ouço mais um.
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